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“Uma economia que diz que precisa estabilizar, para depois crescer para depois distribuir é uma falácia, é uma economia que condena os povos a uma brutal desigualdade de concentração de renda e de riqueza.  Isto é coisa de tecnocrata alucinado, que acha que está tudo O.K e não está tudo O.K.”
Maria da Conceição Tavares


Quando desembarcou no Brasil em fevereiro de 1954, fugindo da ditadura do Salazar, a portuguesa Maria da Conceição Tavares acreditava que o país iria ser uma democracia e uma civilização original dos trópicos. Em agosto Getúlio Vargas se suicida, ela se assusta, mas felizmente, veio o período pujante de JK, a construção de Brasília, a bossa nova, o cinema novo, um momento de grande criatividade para as artes, a literatura, um período estimulante, de afirmação do país como nação. E ela cá ficou.


Começa assim a história de Conceição Tavares em terras brasileiras, começa assim o documentário “ Livre Pensar- cinebiografia de Maria da Conceição Tavares – dirigido pelo cineasta José Mariani – autor de dois outros importantes documentários sobre e economia brasileira, “O longo amanhecer- cinebiografia de Celso Furtado, de 2005 e “Um sonho intenso” de 2014.

 

Mariani reconstrói em seu filme a trajetória desta personagem ímpar, multifacetada, de intelectual, economista, professora, militante engajada nas causas políticas e sociais, defensora ardente de seus princípios teóricos e éticos, coroados uma personalidade complexa e polêmica, admirada por muitos e combatida por tantos outros.

 

 Conceição, assim que chega ao Rio de Janeiro, ela, que é matemática de formação, começa a cursar a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil, a atual UFRJ, onde de aluna passa rapidamente a professora.
Tem uma passagem pelo BNDE, em seguida entra para a   CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina -onde é embebida do conjunto do pensamento econômico critico latino-americano. E se destaca ao escrever, ainda relativamente jovem, em 1963, o ensaio “Auge e declínio do processo de substituições de importação no Brasil”, um livro emblemático, que se tornou um clássico, com 12 edições em português.

 

Em 1969, Conceição é convidada para ir trabalhar na CEPAL do Chile. Pede licença de seu cargo como professora da UFRJ e chega em Santiago alguns meses antes do AI 5. Esta licença a salva de ser expulsa da universidade.

 

Em Santiago, paralelamente as aulas na CEPAL, Conceição leciona na Escola Latina, que era um programa de mestrado ligado a Universidade do Chile, um espaço de intenso debate, onde se fazia uma reflexão teórica importante sobre o desenvolvimento do capitalismo em geral e em particular sobre a América Latina e mais particularmente sobre o que acontecia no Brasil.

 

Conceição volta ao Brasil em 1973-- meses antes do golpe que derrubou Allende-- para retomar sua cadeira na Universidade e escreve duas teses, que também se transformarão em marcos: em 1974 a tese de livre docência “ Acumulação de capital e industrialização no Brasil” e em 1978 defende a tese “ Ciclo e crise-- o movimento recente da Economia Brasileira”.

Nos anos 80, diante da crise da dívida externa brasileira, Conceição começa a estudar economia política internacional. “ Os destinos do mundo mudaram muito a partir dos anos 80, foram anos de transição para um lugar ruim, que é a tal da globalização, desregulação, neoliberalismo que provou uma tal instabilidade mundial que é uma crise atrás da outra”, explica durante uma palestra que compõe o documentário.  E em 1985 escreve o ensaio “ A retomada da hegemonia norte-americana”. Mais uma vez Conceição pensa com liberdade, confronta as ideias instaladas, provoca reflexões...


Irreverente e aglutinadora


“ Eu fiquei brava no Brasil”, conta, humorada, Maria da Conceição. Esta “braveza” nada mais é que sua forte e intensa personalidade que foi se forjando no correr dos anos, seu jeito franco, passional de exprimir sua indignação diante das injustiças, deslizes, desmandos que foi encontrando aqui e pela vida afora. E que José Mariani consegue capturar com maestria nesta cinebiografia.


Conceição inconforma-se por exemplo, quando vê amigos e ex-alunos, que sempre foram de esquerda, tornarem-se direitistas, “uma coisa horrível, uma desgraça, um horror”, diz, no seu jeito sincero de ser.  “ Parece que os mestres nasceram para serem humilhados pelos alunos”.

 

Engana-se, porém, quem acredita que esta personalidade transbordante a afastava dos alunos e amigos. Conceição Tavares sempre teve uma tinha uma aptidão única para atrair e aglutinar seguidores. E sobretudo, um talento extraordinário para formar profissionais e professores. O que fica claro neste documentário, todo pautado por depoimentos de seus ex-alunos, hoje expoentes dentro das universidades brasileiras.


Mas Conceição ---e isto sabemos--- não se ateve a sua carreira universitária.  Isto porque nunca visualizou seu papel de economista e professora descolado de seu dever político e social.  No final dos anos 70 filia-se ao
PMDB, e junto com seus colegas da Unicamp ia todo fim de semana para São Paulo na casa do “velho”, como ela chamava o Ulisses Guimarães, para discutir a questão das “diretas já” e elaborar o programa “Esperança e Mudança. ”

 

Já no governo Sarney, Conceição apoiou o Plano Cruzado, e foi até cunhada de sua “musa”.

 

Em 1989, diante da traição feita a Ulisses Guimarães pelo PMDB, que deu sustentação ao candidato Collor nas eleições presidenciais, (sendo Ulisses também candidato), ela não titubeou, deixou o partido e filiou-se ao PT, pelo qual foi eleita deputada federal em 1994.

 

 Como de se prever, Conceição tornou inesquecível sua participação no Congresso nacional, pautada pela sua coerência, sua combatividade e irreverência e pelas verdadeiras aulas de economia que dava a cada uma de suas falas. Ela, porém, não guarda boas lembranças da época.  “Minha experiência como deputada foi dramática, foi durante o governo do Fernando Henrique, quando começaram as privatizações”, lembra. “Passei todo o mandato votando contra e fui sistematicamente derrotada, nunca votei com a maioria. Foi muito cansativo”.

 

Conceição Tavares recusou-se a se renovar sua candidatura, mas não se calou. Participou várias vezes do Fórum Social Mundial, e parte de sua fala de 2002, em Porto Alegre, tem um lugar especial no documentário de José Mariani.

 

“Se eu não acreditasse com a cabeça, com o coração, com a barriga, não vinha aqui para Porto Alegre para falar para um auditório destes aos quase 72 anos”, exclamou na ocasião. “Temos uma cultura, uma capacidade de negociação, brigamos como cães, mas depois vamos para a festa, juntos, isto é, muito nosso, não tem esta coisa não falo mais com fulano, esta ideia de tolerância, da aceitação ao direito da discrepância, isto é uma ideia que está avançando” para concluir. “Não sou sábia, sou apenas como vocês, apenas mais velha, uma militante que não parará até a hora de morrer. Marchem até morrer. ”

 

O documentário “Livre pensar –  cinebiografia de Maria da Conceição Tavares”, de José Mariani, foi produzido pela ANDALUZ com o patrocínio do BNDES.